Começa hoje a noite, dia 03/04 na Austrália, a janela para realização do WCT Bells 2012, em sua 51ª edição, o mais tradicional campeonato de surf do mundo promete, ainda mais depois do gostinho de "quero mais" que a primeira etapa do mundial de 2012 deixou.
Caso não mudem a chave de baterias estas serão as batalhas da primeira fase:
1 - JORDY SMITH X KIEREN PERROW X FRED P;
2 - OWEN WRIGHT X BEDE DURBIDGE X PAT GUDAUSKAS;
3 - ADRIANO DE SOUZA X RAONI MONTEIRO X TAYLOR KNOX;
4 - JOEL PARKO X ADAM MELLING X KAI OTTON;
5 - TAJ BURROW X KOLOHE ANDINO X WCARD;
6 - KELLY SLATER X BRETT SIMPSON X WCARD;
7 - JULIAN WILSON X JEREMY FLORES X YADIN NICOLL;
8 - GABRIEL MEDINA X MICK FANNING X JADSON ANDRÉ;
9 - JOSH KERR X ADRIAN BUCHAN X TRAVIS LOGIE;
10 - MICHEL BOUREZ X DAMIEN HOBGOOD X CJ HOBGOOD;
11 - ALEJO MUNIZ X JJ FLORENCE X TIAGO PIRES;
12 - HEITOR ALVES X MIGUEL PUPO X MATT WILKINSON;
A previsão, segundo o site da ASP é "nada menos que excelente" e a exemplo do evento do ano passado, devemos ter boas ondas para os competidores mostrarem o que sabem.
Adriano de Souza é meu favorito na terceira da primeira fase, embora nada impeça Raoni e TK de se levantarem e surpreenderem o atual segundo colocado no ranking.
Medina e Jadson tem uma parada indigesta na oitava da fase. Mick vem que vem, como diria Galvão, pois esta mordido da prematura derrota na primeira etapa e esta em plena forma, mas Gabriel também esta a fim e como mostra o site do campeonato, já esta treinando nas ondas da região de Victoria tem um tempo. http://live.ripcurl.com/index.php?aid=2077
Alejo Muniz e Tiago Pires tem outra pedreira na penúltima da fase. Florence vem de uma grande vitória em Margaret River, mas Alejo estava contando os dias para acabar sua fisio e se mandar para Bells, por isso aposto minhas fichas no sangue no olho do catarina argentino.
E na última da fase, outros dois brazzos se encontram, Heitor e Miguel encaram Matt Wilko. Será um show de surf de costas para a onda. Aposto em Heitor nesta, já tem experiência e grandes apresentações em Bells no currículo.
Lembrando que o evento pode começar hoje mesmo, dia 02 no Brasa, mas dia 03 em Aus.
Duas cutucadas fortes são o suficiente para faze-lo abrir os olhos e se levantar. Sua confusão é evidente e o interlocutor apressa-se para ajuda-lo a com o braço estendido.
- Olá, tudo bem contigo?
Nunca ouvira aquela voz antes, e ainda não conseguindo se localizar, balançou a cabeça afirmativamente enquanto tentava fazer com que seus olhos se acostumassem à claridade.
Quando finalmente conseguiu enxergar percebeu que estava no topo de um morro, com campos verdes as suas costas, uma bela floresta a sua esquerda, um vilarejo à direita e uma belíssima praia à frente, uns 300 metros descendo a ladeira. Estranhou, contudo, o silencio.
O dia era claro, sol bem no alto, poucas nuvens e uma leve brisa em direção ao oceano. Deveria estar suando, mas o clima era estranhamente perfeito, não sentia calor ou frio.
- É bem estranha a sensação, não?
Ele tinha esquecido do desconhecido que o acordara. Um rapaz alto e forte, com duas pranchas de surf sobre os braços e um sorriso sincero no rosto. Olhava para ele com curiosidade.
Tudo era muito estranho, um silencio ensurdecedor em sua cabeça, sem qualquer lembrança de como havia chegado ali, aliás, mal lembrava quem ele era.
Parece que passaram-se anos sem um pensamento claro. Sem ouvir dezenas de vozes em sua cabeça e ainda estava se acostumando com a velocidade do próprio pensamento.
- E aí, vamos para a praia? Perguntou o rapaz lhe estendendo uma das pranchas.
Pegando-a logo a reconheceu. Parecia que nunca tinha saído do lado dela. A prancha se encaixou como uma luva embaixo de seus braços.
- Vamos.
Respondeu sem muita certeza do que queria ou poderia fazer ali.
- Só eu venho surfar nesta praia. Poucos vêem aqui. Dizem que a onda é "esquisita". Eu acho ela demais, mas sinto falta de companhia as vezes. Hoje tem uns 6 pés.
Mal o rapaz acabou de falar os dois chegaram a praia juntamente com uma série de umas 4 ondas, uma mais perfeita que a outra. Quando a primeira massa de agua atingiu a bancada ambos presenciaram um expresso assassino para a direita, 4 ou 5 sessões bem distintas, intercalando tubos e paredes velozes "bem em pé" sobre um fundo que parecia mais raso que o aconselhável, sem um segundo de alívio, do drop até a baia onde a onda morria.
- Eles me falaram que você gostaria deste pico. Disse o rapaz.
- Eles quem? Apressou-se a perguntar.
- O pessoal do vilarejo.
Mesmo sem entender quase nada, se sentiu compelido a cair no mar com seu jovem e desconhecido amigo. Sua prancha parecia a mesma de sempre. Segura, fiel, os braços pareciam mais poderosos que nunca. A mente rápida e clara e ondas perfeitas. Realmente, ele gostou do lugar, da onda e do desafio.
Enquanto remavam o jovem dava algumas dicas. Na realidade falava pelos cotovelos. Ele já não o escutava mais desde a primeira onda furada. Já estava captando as energias do lugar, percebendo as nuances da onda enquanto ela se dobrava em velocidade assustadora pela bancada. O jovem não havia percebido, mas ele já conversava com a onda mentalmente, e talvez já a conhecesse melhor que o frequentador do pico.
Sua memória sobre o surf, o seu surf, começou a voltar no momento em que pisou na agua. Cristalina como poucas vezes havia visto...
Ele deixou seu amigo ir na primeira. Lembrou como havia feito isso poucas vezes e sorriu pela primeira vez. Deixou as duas seguintes passarem, queria uma maior e queria um expectador sem linhas na frente para observa-lo.
Remou com segurança, dropou propositalmente atrasado e em menos de um segundo estava em pé, de braços relaxados num salão azul. Passou a primeira sessão e percebeu que a onda é porrada ou porrada e passou por seu novo amigo a 200 por hora para se projetar ao lip destruindo-o por completo.
Retornando ao line up, viu que seu amigo de sotaque yankee era realmente muito bom e vinha destruindo outra bela onda.
Após um par de tubos para cada um ambos se encontraram no outside.
- Desde que cheguei aqui eu surfo esta onda sozinho.
- Ela é fenomenal! Respondeu lembrando que sequer sabia o nome de seu novo amigo.
- Eu estava te esperando. Me falaram que você iria me dar uma força...
- Te dar uma força? Quem é você?
- Me falaram do que você fez, do que optou por passar em busca da evolução espiritual e em como você cumpriu sua missão. Me pediram que eu o recepcionasse. Disseram que somos parecidos e conversando comigo você se adaptaria mais rapidamente.
Ouvindo aquelas palavras, suavemente sua mente começou a rememorar tudo o que se passou. Seus pais, seu irmão, sua família, sua infância, sua juventude, suas vitórias, seus erros, a confusão mental, as vozes, a esquizofrenia e a cruz carregada.
- Me pediram para lhe dar as boas vindas. É sempre especial a chegada de um espirito de luz aqui e me senti honrado em recepciona-lo. Mas ainda não sei no que você pode me dar uma força, no surf acho que não é, né?
Michael Peterson olhou o jovem rapaz por entre suas franjas e coçou o bigode com um sorriso maroto, disparando em seguida para o outside. O jovem, que já se chamou Andy Irons, logo percebeu que não devia ter cutucado aquela onça com uma vara tão curta...
Após uma sessão épica, ele disse: "Rapaz...calou minha boca....Um dia ainda vou te apresentar um careca que conheci..."
A tristeza da morte não pode encobrir o fato dela se tratar de uma passagem que todos enfrentaremos no caminho da evolução e de que o destino único de todos é a felicidade.
obs: texto inspirado numa coluna do Júlio Adler publicado na revista Hardcore de .../.... (tão logo ache a revista em casa coloco o mês e o título da publicação, mas basicamente relata a chegada de AI no outro andar...)
p.s: todas as fotos foram obtidas digitando Michael Peterson no google, não localizei os autores originais, salvo aquelas que os possuem diretamente na imagem.